Uma característica importante facilmente percebida nas grandes cidades é o encontro de um ambiente hostil, inadequado para a realização das necessidades humanas enquanto ?seres-sociais?, com predominância do medo, inseguranças, tensão, ritmos de trabalhos acelerados, busca de uma maior produtividade, necessidade de respostas rápidas, exigência maior a nível sensorial e mental, monotonia, repetitividade, sedentarismo, falta de lazer, alimentação inadequada, sono alterado, desagregação familiar.
Esses fatores são altamente motivadores para o aparecimento e instalação de episódios de Depressão, gerados pelo Estresse, que vão influenciar diretamente na vida dos indivíduos, seja no campo pessoal ou profissional.
Com esse cenário, fica muito difícil proteger a saúde dos trabalhadores, sem correlacionar as implicações ambientais, sociais e econômicas, com as peculiaridades do trabalho a ser executado e, assim, proporcionar o bem estar dessas pessoas. Trabalhar sem necessariamente adoecer ou morrer em decorrência disso, é uma possibilidade, não um sonho! Mas o que fazer enquanto Empresa, quando esses trabalhadores chegam a ela já ?doentes??
Não acredito nos rótulos de ?Cidade Doente? com ?Empresas Doentes? que alguns colocam quando se analisam os números de atendimentos, públicos e privados, e o número de afastamentos do trabalho por estresse e depressão, na cidade de Blumenau.
Acredito sim, que deveríamos tratar as causas da Depressão
Numa realidade social onde cada vez mais o individualismo se faz presente, onde a Família não se apresenta mais como uma instituição forte, capaz de acolher e resolver os problemas das pessoas, fica a pergunta: onde buscar ajuda nos momentos difíceis da vida? Muitas pessoas acabam se apegando ao álcool, às drogas, ao cigarro, tornando-se dependentes dessas ?tábuas de salvação?. Na grande maioria das vezes, por incrível que possa parecer, uma boa conversa em família, ou com pessoas de confiança, na hora certa, ameniza todos esses problemas.
Dada a minha atividade profissional, chegam a mim inúmeros casos de pessoas realmente perturbadas emocionalmente e que, por falta de alguém para ouvi-las, acabam desabafando todas as suas mágoas e frustrações pessoais, geralmente de origem familiar. É facilmente perceptível a necessidade que essas pessoas têm de serem ouvidas. A aparência e a disposição delas mudam para melhor quase que instantaneamente quando reconhecem alguém de confiança e terminam de relatar seus problemas. Profissionais da área Médica com quem tenho conversado, vivenciam isso em seu cotidiano em escala ainda maior.
As Empresas acabam tendo que arcar sozinhas com o ônus da responsabilidade por essas pessoas que, enquanto Funcionários, acabam faltando ao trabalho, produzindo abaixo de seus potenciais, têm sérios problemas de relacionamento com os colegas, e acabam desestabilizando todo um conjunto. Quando acabam por fim afastadas do trabalho, ficam dependentes de um sistema de tratamento que não evidencia as causas e sim os sintomas da Depressão. Filas de espera enormes e profissionais estressados pela sobrecarga de atendimentos, esperam por eles no sistema público de saúde, deficiente em número de profissionais para atendimento Psicológico e Psiquiátrico.
Um grande número de pessoas afastadas do trabalho, não melhora de seu estado depressivo com a simples ausência de atividade laborativa. Muitas vezes o trabalho é o único pilar de sustentação psicológica dessas pessoas, e acabamos lhes tirando até isso.
A Sociedade precisa resgatar a tradição da Família. As pessoas precisam conversar mais. Precisam reaprender a falar e, principalmente, a ouvir. Quase não temos mais aqueles momentos de puro prazer em estarmos diante de nossos familiares, durante as refeições, nos finais de semana, informalmente para falarmos dos nossos problemas familiares. Na hora do jantar, depois de um duro dia de trabalho, a mesa é trocada pela televisão ou pela Internet. Ficam para trás os filhos, as esposas, os maridos. Acumulam-se os problemas do dia-a-dia, as frustrações pessoais, as angústias. Todos estes juntos, um dia aparecerão em forma de distúrbios das mais diversas formas. Todos de difícil tratamento, deixando marcas para sempre.
Ficam duas perguntas para reflexão:
1 ? As pessoas saem do Trabalho estressadas e deprimidas, ou já entram na Empresa se sentindo assim?
2 - É mesmo o Trabalho o maior vilão quando se trata de afastamentos por Estresse e Depressão?
Márcio Alberto Anesi é técnico